Imagina uma gotícula de água que em certo momento toma consciência. Está no meio do oceano e por muito tempo fica ali, levada de um lado a outro pela correnteza. Um dia chega no mar, a frente se encanta com a vista do litoral. A maré a leva, o vento a sopra, em forma de onda beija a costa do continente. Isso é algo que jamais havia experienciado. o continente é tão majestoso. Estava ali a sua frente e a corrente a fez ir e voltar. A cada beijo na costa, uma vez consciente, quis permanecer ali naquele lugar. Entre aproximações e distanciamentos, a gotícula, a sua maneira, reza à natureza para que a mesma aleatoriedade que a levou até lá, a faça permanecer ali.
Por acaso, geografia ou física, ela passa por processos naturais que a transforam, se torna algo novo. Havia deixado o oceano, ido ao mar. Agora se tornara parte de uma nuvem que, por força (novamente) do tempo (e do vento), foi levada para o interior daquele continente pela qual se apaixonou. Em um estado completamente desconhecido, sem saber o que viria a seguir, curtia a jornada pelos ares. Como as vezes os caminhos enfrentam desafios, se viu em conflito, se chocando com outras nuvens. Sentiu que a seguir viria o pior, nessa tormenta surgiram raios e trovoes, assim passando por tudo isso se transformou novamente e caiu em forma de chuva, diretamente para dentro de um rio.
Ali se viu em um estado que lhe era familiar, confortável. Pode tocar novamente o solo pelo qual se encantara e de longe, la no alto, admirava. Contemplava o que achou ser o ápice de sua vida, tinha alcançado o máximo que sua existência até ali pudera almejar. Mas, o acaso lhe era implacável. Após percorrer pelo território daquele continente, saboreando as margens do rio, viu sua vida ser remexida em uma pororoca, que a lançou novamente ao mar e depois no oceano. Levou tempo para entender o que ocorreu ao longo desse seu caminho, e chegou a uma hipótese: fosse pelo acaso, geografia, física ou destino, ela era o que é, fez o que faz, viveu o que viveria e para alem de descobrir, conhecer e viver coisas lindas e incríveis, ela reconhecendo sua insignificância enquanto uma simples gotícula e passou não almejar mais do que poder sentir, o sentimento e a lembrança do sentir era o que dava a lida e fazia sentido, e quantas vezes mais pudesse, enquanto existisse, sentir novos sentimentos e também aqueles sentimentos todos que havia experimentado, sobretudo um que a mais marcou, a vista da costa do continente, faria de tudo para tornar isso possível.
Ainda que nunca voltasse ao interior do continente, sabia que sua passagem por aquele lugar foi de grande importância para sua existência e também para a do continente, pois em ultima análise, ambos, coexistindo no mesmo tempo e espaço, necessitavam dessa interação para serem reais. O que sentiu e viveu, cada descoberta, transformação e sentimento foi profundo e real. E essa intensidade a fez potente para seguir em frente. Sem esperar, des-esperar ou ter em desespero qualquer inquietação, em plena contentação contemplava apenas o saber que, se retornasse ao mar, agora compreendendo que todo encontro é também despedida, aquele beijo no continente seria algo muito além de uma simples experiência, e pra ela, a aproximação dessa simples possibilidade se tornaria a contemplação de sua própria existência. Uma simples gotícula de água cuja jornada quem um dia pudera imaginar, paixões improváveis as quais pode se entregar e ao tomar consciência, pode notar que suas transformação a fizeram sentir a beleza do (a)mar.
sábado, 25 de julho de 2020
domingo, 18 de novembro de 2018
Sobre plástico
Do meme, piada, sei lá o que, sobre o carnaval + glitter + SP.
Se liga.
Os caras fizeram um chuveiro de glitter, c-h-u-v-e-i-r-o de glitter pro carnaval.
"Vai chover glitter na cidade da garoa", disse a diretora de mkt da cervejaria patrocinadora.
Dai, por óbvio, o momento gera a pauta, surgem matérias sobre efeitos dos microplástico (entre esses o glitter) no meio ambiente.
Nesse fervo entra na roda a solução (inteligente, moderna e, por que não, marqueteira) para viabilizar a folia brilhante dos foliões (e não pegar mal) ... os empresários da droga psicotrópica legalizada (cerveja) patrocinadora aderiram a solução minimamente responsável: glitter biodegradável.
Ao invés de ficar tudo a pampa em sampa, vem a turma do "tudo é uma piada" e lança o meme que "o carnaval perde a graça ao chegar em SP" (ou coisa que o valha). wtf ?
Olha, nunca soube que pra um bom carnaval, carnaval "raiz", a porra do planeta tem que se foder pro bloco passar... Jura ? Acho que não. Ou pelo menos não em pleno século XXI, ano 2018, com o atual nível científico e tecnológico, as diversas opções/soluções disponíveis ecologicamente aconselhaves, certo. E ainda, qual o problema de quem acha uma questão importante de se debater, no momento oportuno como esse, e dar visibilidade para a questão ambiental, ainda que "efêmera" (para alguns) expressada na questão do glitter ? Sério, é sério.
Nessa ocasião, recordei que há algum tempo teve quem tirava onda (talvez a mesma turma do tudo é uma piada) dos moradores dos bairros que reuniam maior concentração de blocos de rua, por conta das reclamações de sujeira e urina. Bom, dai é isso. É uma galera de humor desprezível, mesmo.
O pior é que há muitos desavisados que acompanham esse fluxo, ao compartilhar isso. ("ah, era só uma piada").
Vamos lá, pode até ser que carnaval paulista tenha potencial pra ser chato, mas arriscaria dizer, se fosse isso mesmo, que é porque faltam boas escolhas no que se refere a humor e não por conta de reivindicações a fim de tornar a festa mais adequada para os foliões, moradores, cidade e o meio ambiente, a porra toda.
Um dado interessante acerca do saneamento (coleta e tratamento) em SP: de todo esgoto produzido 15% vai direto para os rios do jeito q sai dos imóveis; dos 85% restantes, apenas 75% é tratado pela Sabesp, que é gerida pelo governo do Estado de SP, abre parênteses, que não demonstra investimentos significativos em expansão do tratamento de esgoto, por falta de dinheiro ?, mas veja só, em 2002 (o governo do Estado de SP) abriu capital desta empresa na bolsa de valores de NY (pra que ?), e apenas pra dar uma pista de onde isso tá errado e depois encerrar esse capítulo, em 2015 a Sabesp pagou 27,9% do lucro líquido obtido com a venda de água e tratamento de esgoto (para investimento em expansão ? não!) aos investidores da bolsa... e o que concluímos com isso, né. Só que ai, é assunto para outra mesa.
Retomando, recordei também do primeiro carnaval de rua que fui, foi em 2010, no bloco Vai Quem Quer, na praça Benedito Calixto. Não tem comparação com esses megaeventos de hoje, ainda que a diversão seja equivalente, vem cá, por favor, convenhamos, outras providências são necessárias. 2010 pra 2018. Eu, você, o outro, o mundo, mudou tudo. E lembra só, dessa vez: instalaram um c-h-u-v-e-i-r-o de glitter.
Por todo o (e pouco) exposto, posso afirmar apenas que o carnaval chega em SP e não fica mais chato, só revela a mediocridade da cidadania dessa galera ai... daqueles que provavelmente tem coleta seletiva duas vezes por semana na porta de casa, mas "sempre se esquece" de separar o "lixo" ... óbvio que não se pode esperar que com esse nível de cidadania a pessoa compreenda que é uma boa (até necessária) escolha, por exemplo, o uso do glitter biodegradável (só pra não dizer que não falei das flores), "ah era só piada", dizem, é, coitada dessa geração que não pode mais se divertir fazendo piada nenhuma né, e depois a "geração mimimi" são "os outros"... urg!!
Enquanto isso a festa, os foliões, os moradores, a cidade e o planeta vão muito bem obrigado por aderirem ao que de mais inteligente se tem disponível (seja no humor, seja para os acessórios dos foliões) para o carnaval crescer e ser uma festa linda !
Afinal, trata-se da festa do povo, uma manifestação popular, um momento onde as pessoas ocupam o espaço publico, muito embora as grandes corporações estejam sempre se movimentando e encontrando formas de tomar esse protagonismo da sociedade, prontos para "patrocinar" o que antes era espontâneo da própria comunidade, e dai surgem os ingressos e as catracas, sempre de um lado privilegiados e de outros excluídos, mas ai isso também é papo pra outra mesa.
No mais, pra quem gosta do carnaval e pra quem não gosta: não sejam idiotas ! E, sem essa de "politicamente correto (ou incorreto)", fica aqui a sugestão e convite de optarmos por coisas inteligentes, tanto no humor, na folia, como para com o planeta, dispensando cagação de regra e comentários lacradores, vamos lá. Paz.
Se liga.
Os caras fizeram um chuveiro de glitter, c-h-u-v-e-i-r-o de glitter pro carnaval.
"Vai chover glitter na cidade da garoa", disse a diretora de mkt da cervejaria patrocinadora.
Dai, por óbvio, o momento gera a pauta, surgem matérias sobre efeitos dos microplástico (entre esses o glitter) no meio ambiente.
Nesse fervo entra na roda a solução (inteligente, moderna e, por que não, marqueteira) para viabilizar a folia brilhante dos foliões (e não pegar mal) ... os empresários da droga psicotrópica legalizada (cerveja) patrocinadora aderiram a solução minimamente responsável: glitter biodegradável.
Ao invés de ficar tudo a pampa em sampa, vem a turma do "tudo é uma piada" e lança o meme que "o carnaval perde a graça ao chegar em SP" (ou coisa que o valha). wtf ?
Olha, nunca soube que pra um bom carnaval, carnaval "raiz", a porra do planeta tem que se foder pro bloco passar... Jura ? Acho que não. Ou pelo menos não em pleno século XXI, ano 2018, com o atual nível científico e tecnológico, as diversas opções/soluções disponíveis ecologicamente aconselhaves, certo. E ainda, qual o problema de quem acha uma questão importante de se debater, no momento oportuno como esse, e dar visibilidade para a questão ambiental, ainda que "efêmera" (para alguns) expressada na questão do glitter ? Sério, é sério.
Nessa ocasião, recordei que há algum tempo teve quem tirava onda (talvez a mesma turma do tudo é uma piada) dos moradores dos bairros que reuniam maior concentração de blocos de rua, por conta das reclamações de sujeira e urina. Bom, dai é isso. É uma galera de humor desprezível, mesmo.
O pior é que há muitos desavisados que acompanham esse fluxo, ao compartilhar isso. ("ah, era só uma piada").
Vamos lá, pode até ser que carnaval paulista tenha potencial pra ser chato, mas arriscaria dizer, se fosse isso mesmo, que é porque faltam boas escolhas no que se refere a humor e não por conta de reivindicações a fim de tornar a festa mais adequada para os foliões, moradores, cidade e o meio ambiente, a porra toda.
Um dado interessante acerca do saneamento (coleta e tratamento) em SP: de todo esgoto produzido 15% vai direto para os rios do jeito q sai dos imóveis; dos 85% restantes, apenas 75% é tratado pela Sabesp, que é gerida pelo governo do Estado de SP, abre parênteses, que não demonstra investimentos significativos em expansão do tratamento de esgoto, por falta de dinheiro ?, mas veja só, em 2002 (o governo do Estado de SP) abriu capital desta empresa na bolsa de valores de NY (pra que ?), e apenas pra dar uma pista de onde isso tá errado e depois encerrar esse capítulo, em 2015 a Sabesp pagou 27,9% do lucro líquido obtido com a venda de água e tratamento de esgoto (para investimento em expansão ? não!) aos investidores da bolsa... e o que concluímos com isso, né. Só que ai, é assunto para outra mesa.
Retomando, recordei também do primeiro carnaval de rua que fui, foi em 2010, no bloco Vai Quem Quer, na praça Benedito Calixto. Não tem comparação com esses megaeventos de hoje, ainda que a diversão seja equivalente, vem cá, por favor, convenhamos, outras providências são necessárias. 2010 pra 2018. Eu, você, o outro, o mundo, mudou tudo. E lembra só, dessa vez: instalaram um c-h-u-v-e-i-r-o de glitter.
Por todo o (e pouco) exposto, posso afirmar apenas que o carnaval chega em SP e não fica mais chato, só revela a mediocridade da cidadania dessa galera ai... daqueles que provavelmente tem coleta seletiva duas vezes por semana na porta de casa, mas "sempre se esquece" de separar o "lixo" ... óbvio que não se pode esperar que com esse nível de cidadania a pessoa compreenda que é uma boa (até necessária) escolha, por exemplo, o uso do glitter biodegradável (só pra não dizer que não falei das flores), "ah era só piada", dizem, é, coitada dessa geração que não pode mais se divertir fazendo piada nenhuma né, e depois a "geração mimimi" são "os outros"... urg!!
Enquanto isso a festa, os foliões, os moradores, a cidade e o planeta vão muito bem obrigado por aderirem ao que de mais inteligente se tem disponível (seja no humor, seja para os acessórios dos foliões) para o carnaval crescer e ser uma festa linda !
Afinal, trata-se da festa do povo, uma manifestação popular, um momento onde as pessoas ocupam o espaço publico, muito embora as grandes corporações estejam sempre se movimentando e encontrando formas de tomar esse protagonismo da sociedade, prontos para "patrocinar" o que antes era espontâneo da própria comunidade, e dai surgem os ingressos e as catracas, sempre de um lado privilegiados e de outros excluídos, mas ai isso também é papo pra outra mesa.
No mais, pra quem gosta do carnaval e pra quem não gosta: não sejam idiotas ! E, sem essa de "politicamente correto (ou incorreto)", fica aqui a sugestão e convite de optarmos por coisas inteligentes, tanto no humor, na folia, como para com o planeta, dispensando cagação de regra e comentários lacradores, vamos lá. Paz.
sábado, 17 de novembro de 2018
Da mediação na paternidade em oração subordinada adjetiva explicativa
Vamos juntos aprender a lidar com gente dissimulada que, aparentemente, exclusivamente conosco, é: "uma pessoa horrível... mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia". Que nos "deixe fora desse seu mau sentimento", amém.
sexta-feira, 16 de novembro de 2018
Sobre seres de luz
Demonstra-se, como é corriqueiro, o quanto coisas efêmeras, contatos virtuais, distantes e desconhecidos, são, com boa dose de ironia e arrogância, por que não um gesto infantilizado até, de maior apreço do que uma jornada de companheirismo real, singular... de respeito, partilha, empatia, admiração, afeto e amor... e um tanto de outras coisas, inclusive defeitos que proporcionam oportunidades para quem sente o que diz sentir, dar o fino ajuste e manter a afinidade. Sem julgamento de valor, é o que está dado. E assim é a verdade em suas nuances, mesmo quando não se percebe que a escuridão se sobrepõe ao encanto do que se diz ser luz.
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
Caça-níqueis
O que se vê é um freakshow, no pior sentido, e não dá pra desver, o ridículo salta aos olhos.
O que é postado carrega intenções e emoções diversas. As intenções são ambíguas e emoções podem ser dissimuladas. A dissimulação rende curtidas nas redes sociais. Já as curtidas geram sensação de empatia e acolhimento... virtuais.
Nessas plataformas a vida é apresentada como um freakshow, no palco são exibidas coisas bizarras, o público reage sem nenhuma leitura crítica acerca do conteúdo e contexto. Aplaude num toc involuntário e por opção interagem de forma alienada.
Troca com troco. Assim mantém o sistema de recompensa funcionando: oferece suporte para receber sua dose de apoio, afinal cada um tem seu próprio palco para exibir o seu grande espetáculo.
E dai ? Nada.
Vale recordar nos momentos oportunos daquele aviso grafitado na parede: "Não se iluda com o show".
O que é postado carrega intenções e emoções diversas. As intenções são ambíguas e emoções podem ser dissimuladas. A dissimulação rende curtidas nas redes sociais. Já as curtidas geram sensação de empatia e acolhimento... virtuais.
Nessas plataformas a vida é apresentada como um freakshow, no palco são exibidas coisas bizarras, o público reage sem nenhuma leitura crítica acerca do conteúdo e contexto. Aplaude num toc involuntário e por opção interagem de forma alienada.
Troca com troco. Assim mantém o sistema de recompensa funcionando: oferece suporte para receber sua dose de apoio, afinal cada um tem seu próprio palco para exibir o seu grande espetáculo.
E dai ? Nada.
Vale recordar nos momentos oportunos daquele aviso grafitado na parede: "Não se iluda com o show".
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Sobre o ódio revestido de opinião
Curioso como o passar do tempo, aliado ao tornar-se pai, criando meu filho sozinho, consigo refletir (tipo exercício de terapia) com maior (ou menor) clareza sobre alguns aspectos de minha jornada / formação enquanto indivíduo.
Por exemplo, algo que hoje é claro como luz do dia: me recordo de ouvir (direcionado a mim) desde muito pequeno "odeio sertanejo", "odeio Corinthians", "odeio Rio de Janeiro", "odeio sua igreja", "odeio fulaninho seu amigo", dentre outros tantos "odeio" que estavam ali disponíveis.
Sabe, é como dizem: "narciso acha feio tudo aquilo que não é espelho", no entanto, aquilo estava projetando para mim algo que promovia uma naturalização de um determinado comportamento, embora se busque justificar ponderando "tudo bem não gostar de deste tipo musical ou de daquele clube de futebol, ah, coisas bobas, inocentes", a intensidade daquela postura, pensada agora após 29 anos vividos no cabresto deste desdém, e nesse momento de crise ética / política / social, não é algo que se possa ignorar. O alvo não era expor uma aversão a "coisas" inanimadas, o ódio era às pessoas ali representadas. Isso elucida que algo não está saudável há muito tempo (ou nunca esteve).
Considerando que para a vida adulta já é algo perigoso, esse tipo de ambiente na infância tem maior potencial de normatizar o comportamento a qual seu discurso propõem: o "ódio" revestido de "opinião".
Disse ódio, mas é também ignorância, preconceito, falta de empatia e altruísmo.
De lá pra cá sei que reproduzi muito isso sem consciência das consequências deste tipo de postura e arcando com todos os efeitos colaterais que amargo em minha história e jovem jornada, mas tomar ciência disso, se posicionar e desconstruir esse comportamento incutido ao longo de sua formação e vivência... é maturidade que chama? Talvez. Talvez eu prefira dizer: humildade, ou ainda, humanidade.
Busco construir uma vivência diversa e acolhedora ao meu filho, não é esse país e mundo (e mentalidade) de ódio que desejo para ele.
Para quem quiser entender a origem da reflexão que se transformou nessa postagem, assista a esse vídeo: https://youtu.be/CH7XUcPLq58
Por exemplo, algo que hoje é claro como luz do dia: me recordo de ouvir (direcionado a mim) desde muito pequeno "odeio sertanejo", "odeio Corinthians", "odeio Rio de Janeiro", "odeio sua igreja", "odeio fulaninho seu amigo", dentre outros tantos "odeio" que estavam ali disponíveis.
Sabe, é como dizem: "narciso acha feio tudo aquilo que não é espelho", no entanto, aquilo estava projetando para mim algo que promovia uma naturalização de um determinado comportamento, embora se busque justificar ponderando "tudo bem não gostar de deste tipo musical ou de daquele clube de futebol, ah, coisas bobas, inocentes", a intensidade daquela postura, pensada agora após 29 anos vividos no cabresto deste desdém, e nesse momento de crise ética / política / social, não é algo que se possa ignorar. O alvo não era expor uma aversão a "coisas" inanimadas, o ódio era às pessoas ali representadas. Isso elucida que algo não está saudável há muito tempo (ou nunca esteve).
Considerando que para a vida adulta já é algo perigoso, esse tipo de ambiente na infância tem maior potencial de normatizar o comportamento a qual seu discurso propõem: o "ódio" revestido de "opinião".
Disse ódio, mas é também ignorância, preconceito, falta de empatia e altruísmo.
De lá pra cá sei que reproduzi muito isso sem consciência das consequências deste tipo de postura e arcando com todos os efeitos colaterais que amargo em minha história e jovem jornada, mas tomar ciência disso, se posicionar e desconstruir esse comportamento incutido ao longo de sua formação e vivência... é maturidade que chama? Talvez. Talvez eu prefira dizer: humildade, ou ainda, humanidade.
Busco construir uma vivência diversa e acolhedora ao meu filho, não é esse país e mundo (e mentalidade) de ódio que desejo para ele.
Para quem quiser entender a origem da reflexão que se transformou nessa postagem, assista a esse vídeo: https://youtu.be/CH7XUcPLq58
Encontro com Gegé
Manhã chuvosa em SP. Empurrado para dentro do “navio negreiro”, ou melhor, metrô. Gegé estava na plataforma. Me viu e veio me contar. "Brunão, você tá ligado que o bicho pegou lá no trabalho". Fingi não saber para que ele pudesse me contar com suas próprias palavras o que ocorreu.
"A galera tá aflita, acabou caneta pra geral". "Hmm" disse sem expressar interesse. "Então, deixei a galera no maior sufoco, sabe como é, eu tinha usado a grana do almoxarifado para almoçar, faz um mês que to devendo o reembolso para o escritório, só que ai acabou a caneta, meio que eu mosquei, porque eu já tinha sido avisado que estava acabando o estoque, e não fiz a reposição, alias, nem tinha grana né, gastei tudo comendo fora".
Essa história me pareceu ser outra coisa. “Brunão, tá tranquilo, porque estão pondo a culpa no gerente, essa gente não sabe de nada né não, tô de boa, alias, vou ser o herói, hoje é dia cinco e o gerente vai acertar meu ordenado, vou lá e compro as canetas, todo mundo fica feliz e eu fui o cara que tirou todos do sufoco, daora, fala ai?”. Pensei em mil coisas, mas não disse nada. Desci na minha estação para a baldeação, eu ainda faria mais duas.
Já reparou como se anda dentro das estações do “shopping”, ou melhor, metrô. Sai dali com uma sensação de que o Gegé estava sacaneando a galera de propósito, mas no fim, acho mesmo que ele apenas não serve para trabalhar no almoxarifado. E essa história ainda me pareceu algo além.
"A galera tá aflita, acabou caneta pra geral". "Hmm" disse sem expressar interesse. "Então, deixei a galera no maior sufoco, sabe como é, eu tinha usado a grana do almoxarifado para almoçar, faz um mês que to devendo o reembolso para o escritório, só que ai acabou a caneta, meio que eu mosquei, porque eu já tinha sido avisado que estava acabando o estoque, e não fiz a reposição, alias, nem tinha grana né, gastei tudo comendo fora".
Essa história me pareceu ser outra coisa. “Brunão, tá tranquilo, porque estão pondo a culpa no gerente, essa gente não sabe de nada né não, tô de boa, alias, vou ser o herói, hoje é dia cinco e o gerente vai acertar meu ordenado, vou lá e compro as canetas, todo mundo fica feliz e eu fui o cara que tirou todos do sufoco, daora, fala ai?”. Pensei em mil coisas, mas não disse nada. Desci na minha estação para a baldeação, eu ainda faria mais duas.
Já reparou como se anda dentro das estações do “shopping”, ou melhor, metrô. Sai dali com uma sensação de que o Gegé estava sacaneando a galera de propósito, mas no fim, acho mesmo que ele apenas não serve para trabalhar no almoxarifado. E essa história ainda me pareceu algo além.
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