sábado, 25 de julho de 2020

Reza

Imagina uma gotícula de água que em certo momento toma consciência. Está no meio do oceano e por muito tempo fica ali, levada de um lado a outro pela correnteza. Um dia chega no mar, a frente se encanta com a vista do litoral. A maré a leva, o vento a sopra, em forma de onda beija a costa do continente. Isso é algo que jamais havia experienciado. o continente é tão majestoso. Estava ali a sua frente e a corrente a fez ir e voltar. A cada beijo na costa, uma vez consciente, quis permanecer ali naquele lugar. Entre aproximações e distanciamentos, a gotícula, a sua maneira, reza à natureza para que a mesma aleatoriedade que a levou até lá, a faça permanecer ali.

Por acaso, geografia ou física, ela passa por processos naturais que a transforam, se torna algo novo. Havia deixado o oceano, ido ao mar. Agora se tornara parte de uma nuvem que, por força (novamente) do tempo (e do vento), foi levada para o interior daquele continente pela qual se apaixonou. Em um estado completamente desconhecido, sem saber o que viria a seguir, curtia a jornada pelos ares. Como as vezes os caminhos enfrentam desafios, se viu em conflito, se chocando com outras nuvens. Sentiu que a seguir viria o pior, nessa tormenta surgiram raios e trovoes, assim passando por tudo isso se transformou novamente e caiu em forma de chuva, diretamente para dentro de um rio.

Ali se viu em um estado que lhe era familiar, confortável. Pode tocar novamente o solo pelo qual se encantara e de longe, la no alto, admirava. Contemplava o que achou ser o ápice de sua vida, tinha alcançado o máximo que sua existência até ali pudera almejar. Mas, o acaso lhe era implacável. Após percorrer pelo território daquele continente, saboreando as margens do rio, viu sua vida ser remexida em uma pororoca, que a lançou novamente ao mar e depois no oceano. Levou tempo para entender o que ocorreu ao longo desse seu caminho, e chegou a uma hipótese: fosse pelo acaso, geografia, física ou destino, ela era o que é, fez o que faz, viveu o que viveria e para alem de descobrir, conhecer e viver coisas lindas e incríveis, ela reconhecendo sua insignificância enquanto uma simples gotícula e passou não almejar mais do que poder sentir, o sentimento e a lembrança do sentir era o que dava a lida e fazia sentido, e quantas vezes mais pudesse, enquanto existisse, sentir novos sentimentos e também aqueles sentimentos todos que havia experimentado, sobretudo um que a mais marcou, a vista da costa do continente, faria de tudo para tornar isso possível.

Ainda que nunca voltasse ao interior do continente, sabia que sua passagem por aquele lugar foi de grande importância para sua existência e também para a do continente, pois em ultima análise, ambos, coexistindo no mesmo tempo e espaço, necessitavam dessa interação para serem reais. O que sentiu e viveu, cada descoberta, transformação e sentimento foi profundo e real. E essa intensidade a fez potente para seguir em frente. Sem esperar, des-esperar ou ter em desespero qualquer inquietação, em plena contentação contemplava apenas o saber que, se retornasse ao mar, agora compreendendo que todo encontro é também despedida, aquele beijo no continente seria algo muito além de uma simples experiência, e pra ela, a aproximação dessa simples possibilidade se tornaria a contemplação de sua própria existência. Uma simples gotícula de água cuja jornada quem um dia pudera imaginar, paixões improváveis as quais pode se entregar e ao tomar consciência, pode notar que suas transformação a fizeram sentir a beleza do (a)mar.

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